A importância das coisas...



Nunca soube escrever cartas de amor, não por não saber que palavras poderia usar para vestir os sentimentos mas porque nunca soube como falar de amor, não por não saber amar mas porque nunca soube falar de como se deve amar e de como tendencialmente amo, não por não ter amado ou amar mas porque nunca soube falar de coisas apenas vistas como felizes …
É simples falar de raiva, moldar o discurso numa dor doseada à expressão em turbilhão de lutas constantes entre o que sentimos, o que queríamos sentir e aquilo que nunca sentimos nem nunca iremos sentir… é tão simples escrever sobre raiva e com raiva basta cerrar os dentes e saborear o gosto amargo do que nos revolta…
Escrevi e escrevo sobre medo e medos e assustam-me os medos que são meus e de todos que são de todos e tomo como meus para melhor falar sobre eles, para melhor entender os outros como se procurasse entendê-los em mim ou entender-me neles…é tão simples escrever sobre medo quando temos medo de todos os medos…
Escrever sobre um amor com raiva, falar sobre raivas de amor isso consigo a custo mas consigo, consigo enfurecer-me nos gestos desenhados em rascunho desalinhado, consigo falar sobre amores com cicatrizes, os melhores amores são os amores com cicatrizes, os amores com marcas e buracos de bala, não amores-perfeitos e de essência intocável, isso não são amores, são mera inocência, são amores desenhados nos cantos da folha do caderno de escola sovado, são amores do velho Platão e não acredito no amor com filosofia…acredito em amores com a roupa em farrapos mas com um sorriso sincero e sobre esses consigo dizer qualquer coisa e às vezes até escrevo sobre eles…
Mas não me peçam para escrever cartas de amor, não sei fazer versos nem rimas, não sei fingir amores puros e inocentes, preciso de alguma maldade, preciso de cicatrizes, preciso de feridas abertas e de beijos mordidos com despedidas em falso desprezo e uma saudade em braços teimosamente fechados para não dar parte fraca, não me peçam para escrever sobre sentimentos perfeitos pois não existem sentimentos perfeitos, o que é perfeito é utopicamente banal, o amor não é perfeito nem tem forma de um coração perfeito, não o amor em que acredito, acredito em amores falhados, de coração rasgado e depois cosidos a sangue frio em uma costura imperfeita e torta e ai sim se sente com toda a intensidade… acredito nas coisas como elas são e sobre isso sim, consigo escrever…acredito na realidade mas por vezes perco-me em sonhos em demasia…

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