Carta I



dia 15 de Junho 13:25h
Acabado de chegar a München-Riem e ainda no aeroporto Franz Josef Strauss, uma pausa para tomar um café e dar-te notícias minhas. As saudades são mais que muitas e ainda falta tanto tempo para o regresso. Já não sei se são saudades. Se as imagino ainda. Se as minhas mãos alguma vez tocaram a tua pele, a tua cintura. Não deve ser nada. Só imaginação minha este sal na boca. Faz-me falta o mste murmúrio do mar, o sargaço frio que me enleia as pernas. Não podem ser saudades. Nunca existiram os teus beijos, a falta que me fazes…

Queria saber se o sol está junto de ti hoje. Sinto que sim. O dia amanheceu a chorar aqui junto a mim. Tenho tantas saudades tuas. E cada dia que passa é mais um a juntar ao sonho. Esta é uma cidade grande, estranha no primeiro dia, e eu tenho dificuldade em a compreender, e compreender a correria a que vive esta cidade. é nestas horas enquanto caminho que acredito no amor algum dia sim... Tenho tantas saudades tuas. E cada dia que passa é mais um em que te invento cada vez menos. Ando na rua a olhar as pessoas, mas é como se não andasse, e que não estivesse aqui tão longe da nossa praia onde fui feliz com a tua companhia. Tão longe do por do sol e do cheiro do mar. Aqui não consigo ver o por do sol, nem o mar como no nosso tempo. Acreditas que tivemos um tempo que era só nosso? Fico sem saber se o sol está junto de ti hoje. Mas também não sabia ontem, ou antes de ontem, ou no futuro. O futuro é sempre a minha angústia por não saber de ti, adiada. E quando adormeço nunca sei se acordo á tua beira ou se te invento para me sentir lúcido e vivo. Porque o que queria era sentir-me amado por ti. Existes por dentro só dentro de mim, num lugar secreto onde existe o sol sempre, e o teu sorriso nos lábios, e os olhos brilhantes, e a tua pele, as tuas mãos, o teu perfume. O teu cheiro perdura em mim e no tempo. O teu olhar na noite quando me fitavas a quereres entrar por dentro de mim. O que me encanta em ti? Porque me encantas tu? Verdadeiramente nunca soube quem eras. Se existes com alguma verdade por fora da minha memória, se as minhas mãos tocaram as tuas, se o meu corpo tocou o teu, se o olhar se encontrou agora que estou aqui nesta cidade demasiado grande sem ti. As ruas perdem a graça. As pessoas passam e não dão por mim. Não te reconheço em nenhuma delas.

-Tenho saudades tuas.

De te enlaçar em mim. De te abraçar e levantar e rodopiar na areia enquanto os teus cabelos se colam na minha cara, de me deixar cair na areia quente abraçado a ti, de te sentir, de sentir os teus lábios quentes em mim enquanto me beijas com a sofreguidão da primeira vez. Sentes como estremeço por dentro.

- Tenho saudades tuas.

Saudades das tuas mãos, saudade da cor das tuas unhas, saudade do teu cheiro em mim, saudades dos teus olhos que me fascinam. Ontem pela madrugada despedias-te de mim, e eu fiquei sem conseguir falar-te. Acho que parti num dos barcos que rumavam ao mar… É importante que saibas que em todos os lugares por onde passo é o teu olhar que me olha…

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