Carta II


O silêncio impera na cidade grande
Saboreio um whisky lentamente
Tenho o pensamento já vazio nesta hora, e o corpo cansado.
Tento descansar afundado neste sofá.
Eu gosto das coisas boas
Não me serve uma bebida qualquer
Bebo whisky de quinze anos preferencialmente
Com gelo, duas pedras. Nem mais nem menos!
Neste intervalo leio o Livro do Desassossego de Bernardo Soares
Leio em voz alta, para não estar só, o trigésimo texto
E fico espantado!
Em voz alta ganha vida!
Faço parte dele e assusto-me!
Sou todo o livro nas suas palavras
Como te compreendo companheiro de letras…

Entornei mais um copo
O segundo
Duas pedras de gelo
Larguei o livro e arrependo-me!
Sinto-te aqui!
Arrependo-me de não te ter já tomado nos meus braços
Não ter roubado o sabor desses lábios
Sentir a dureza quente dos teus seios encantados
contra o meu peito num abraço terno e rude
Desesperado!

Sentir-te tremer ofegante
E arrependo-me de não me ter perdido no teu corpo
Deixar passearem minhas mãos
Meus lábios,
E meus olhos
Por teus caminhos,
descobrindo os teus desejos carnais e íntimos
Meus desejos de sonhos...
Mas sempre no amanhã.
A infância pura que se foi
O doce sabor a mel de teus lábios...

Afundo-me no sofá!
Afundo-me em recordações
Estou a andar para trás no tempo
Saudade de ti! Saudade que dói sem se sentir…
Continuo só...
O coração apertado numa dor que não se explica,
uma insatisfação perene
É um facto. Triste e só.
Porque não estás comigo aqui, agora?
Dou por mim olhando a existência
E tudo não passam de sombras imprecisas na memória
Não existem raízes ou memórias…
Sou um imenso monumento memorial feito de lapsos
Momentos de luz
E espaços em branco...

A minha rudeza sensível, apurada pelo álcool
Vem ao de cima, como uma maré negra peçonhenta.
Afundado finalmente nas profundezas oceânicas
Afundado bem dentro de mim
Assim permaneço também, afundado no sofá
Saboreio um último trago, já sem gelo
Assim estático…

Revejo mais uma vez, o teu amor por mim
Estás aí e aqui,
Sempre de roda de mim omnipresente
Com um inexplicável medo no olhar e nos actos
Ou se calhar no pensamento
Eu já não fujo
Perdi o momento, ou a causa deixou de ter efeito
Quando penso em virar costas, sinto-me cansado.

Deixei que o pensamento fosse na última viagem
E quando reparo no caminho que faço diariamente,
instituído e rotineiro
Tarde da noite, abandono-me e adormeço desfalecido
As mãos cansadas, o cérebro exausto, já não sonho
Assim repetitivamente,
vou adormecendo e acordando em sobressaltos
Altas horas da madrugada, e desconheço-me
Perco-me do sítio onde estou
Então
Porque já te encontras ao meu lado dormindo tranquila, fico em paz.
Devagar
Lentamente, viro costas e fecho os olhos
Dentro de nada toca o despertador, e inicio mais um dia já cansado
Maquinalmente levanto-me, lavo a cara com água fria, estremeço
Enfrento mais um dia de luta, e envelheço...

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