Eras tu?



Não sei se eras tu? Fiquei a tremer por dentro porque não estava preparado para te encontrar. Não sei se eras tu. Queria que fosses mas não ganhei a coragem suficiente para aceitar uma rejeição tua ou o fingires que eu não existo. Por isso não me aproximei. Agora fico na dúvida. Eras ou não eras? E isto consome-me. Já estou habituado à ausência. Haja o que houver. Eu sei que não voltas. Eu sei na plenitude do sentir. Tento substituir-te, mas são enamoramentos precoces, ninguém é como tu porque és una e omnipresente em mim. Espécie de hera trepadeira que ganhou raízes por fora e dentro do corpo. Ninguém está ao teu nível. És foste tudo. O resto são tentativas ou aproximações a ti. As imagens são sempre difusas. Só tu és perfeitamente visível mesmo na noite cerrada nas minhas navegações mar adentro, só a te sinto a ti na brisa ou no vento forte da tempestade que fustiga as velas, retesa os cabos, abalroa o casco deste meu velho veleiro onde aprendeste a ser marinheira… Sabes, tu és a brisa da manhã, o sol que nasce, o calor na pele, e eu aqui sozinho navego aproveitando a tarde quente, o vento de norte que me afasta de ti. Nada mais que uma viagem que me afasta de ti. Nada é já urgente, fora a angústia que sinto por dentro, e me faz ficar confuso e triste. Percorro um oceano imenso em tua demanda, e não tive a coragem de me aproximar a ver se eras efectivamente tu. Há coisas para que um homem não está verdadeiramente preparado e eu não estava no momento. Agora estava, mas estou de novo longe. Navego rumo ao sul, rumo a terras do sol nascente, onde sopra um norte fresco, aproveito o embalo bonançoso, o balançar ritmado do meu companheiro barco de viagens e escrevo-te de novo. Esta é a minha libertação de ti. O meu fantasma que habita por dentro e me faz ser assim, o olhar cansado, distante. O corpo sempre ausente insatisfeito. Vou só que é como costumo navegar, solitário, o mar e eu sobre um pedaço de madeiras com alma; o meu barco antigo. Recordo-te ao meu lado junto à roda do leme no início em que tudo era estranho para ti, a novidade, a emoção, o quereres dominar o vento e o mar, aprendeste depressa que o vento e o mar não se dominam, são livres, fortes, amigos ou inimigos implacáveis sem compaixão. Aproveitamos o melhor de cada um, num respeito mútuo, nunca, mas nunca em momento algum os podemos subestimar, ou ultrapassar os limites sob pena de sermos engolidos pela sua fúria, a sua força. Subestimei-te também a ti, eu que sou um marinheiro habituado a ver ao longe, a entender os sinais do mar, das nuvens, dos pássaros a caminho de terra. Perdi-me de amores por ti a assim perdido deixei de ser eu para tentar ser tu, e isso não é um caminho seguro, de bons resultados, não podemos ser outro no amor, temos de ser nós, verdadeiros e unos. O amor é partilha, igualdade complemento um do outro. São precisos dois para amar lembras-te? Para amar na plenitude, assim é sofrimento porque é um amor sem eco, silencioso utópico, platónico. Sei lá que palavras para te explicar o que é que sinto no momento. Já não te importas. Já não vale a pena. Mas gosto tanto de pensar em ti, nos meus momentos de fraqueza em que me sinto a sucumbir, a fechar os olhos, busco-te com o pensamento e tu vens. Poderosa. Diáfana. Sublime. Transbordante de amor. E todos os meus males, os pensamentos negros, as dores, tudo desaparece e eu renasço em ti de novo fortalecido porque te amo e o amor é imortal. A sorte que tenho de te ter a ti como mulher feiticeira ou deusa que povoas os meus sonhos, os meus pensamentos, acalmas os meus temores, ajudas a vencer os medos e as fúrias dos ventos, a força do mar. Um dia regresso definitivamente a terra. Encalho o barco numa ilha distante, só nossa e venho embora. Irei á tua procura, porque tu afinal existes! Irei. Chego tarde, eu tenho a plena consciência disso. Demasiado tarde para mim, para ti, para nós, é tarde para o amor é tarde para amar o que é diferente do amor. Amor é o que sinto por ti, não sei é já se te amo, pronto! Confesso que te amo ainda, que me fazes falta, que me sinto só. Incompleto. Amor é isso. Uma palavra forte, plena sentida, grande, redonda. O amor é redondo! Volto sempre para ti! As voltas que o mundo dá em mim…O meu amor é redondo!

Não sei se eras tu? Estavas de costas do outro lado da rua. Olhavas a montra, andavas às compras. Os sacos nas mãos denunciavam isso. O coração disse-me que eras tu, eu é que não quis acreditar no que os olhos viam e o coração dizia. Continuas bonita. O teu cabelo perfeito. Continuas uma mulher plena. Os anos não passam, passo eu apressado.

Hoje já não vou a lugares da memória, deixo-os dentro de mim como os senti, para não serem maculados com a globalização do progresso. Nem sempre o melhor progresso, coisas de cada um…Tu sabes que eu gosto das coisas antigas, das tradições que se perdem. Tu sabes que gosto do mar. E o mar é um sacrifício para o pescador. Os naufrágios que assisti. Os amigos que se foram… Tu sabes porque muitas vezes te falei nisso. Acho que ainda te lembras, se não te lembrares já não faz mal. se calhar já não tenho importância para ti, e estas são recordações tristes, portanto esquece o que te disse ou o que desabafei contigo nos nossos serões junto à lareira ou nas navegações que fizemos juntos… Gostava de te ver com a minha camisa de xadrez e os cabelos sobre os ombros ao vento quando vinhas ter comigo pela manhã e fazias durante um tempo o quarto ao leme, gostava de contemplar a tua atenção à agulha a corrigir os desvios por força das vagas pequenas a saltitar por sobre o mar imenso. As saudades que tenho da tua companhia a bordo. Acho que o barco nunca mais foi o mesmo sem ti, perdeu a alegria deixou de ser altivo e dócil ao movimento do leme. Envelheceu junto comigo. Precisa de uma reforma profunda desde a quilha ao convés…Está pesado e cansado de tantas milhas náuticas. O tempo agora é imenso, custa a passar, as noites são longas, as vigias penosas, faltas tu a bordo e o barco dá conta da tua falta, sabes o barco tem alma. A alma da gente.

A minha perde-se na ardência deixada na esteira…

Lembro um poema, acho que nunca te falei que gosto de ler poemas, gostav de te ler os meus poemas, no entanto agora escrevo-os, não sei se algum dia vais ler o que escrevo para ti, não sei se serão poemas algumas das palavras a ti dedicadas, sejam o que forem, o importante é que são sentidas porque saem de dentro como a água das entranhas da terra pura. Portanto são puras as minhas palavras a ti porque saem de dentro de mim onde a poluição ou a contaminação não chegou ainda. E, recordo um poema. Nunca te tinha falado nos poemas que gosto, penso eu... mas deste gosto e quero partilhá-lo contigo, não sei se conheces o autor, Hamlet L. Quintana e diz assim:

… Ninguém tem o rosto da minha amada
Um rosto onde os pássaros
Distribuem tarefas matinais.
Ninguém tem as mãos da minha amada.
Umas mãos que se aquecem ao sol
Quando acariciam o pobre da minha vida.
Ninguém tem os olhos da minha amada.
Uns olhos onde os peixes nadam livremente
Esquecidos do anzol da estiagem,
Esquecidos de mim que os espero
Como o antigo pescador da esperança
Ninguém tem a voz com que fala a minha amada.
Uma voz que nem sequer roça as palavras
Como se fosse um canto permanente.
Ninguém tem a luz que a rodeia
Nem essa ausência de sol quando se abisma.
Às vezes penso que ninguém, mas ninguém, tem isso tudo,
Nem sequer ela mesma.

Gostas? Eu gosto deste poema por isso hoje me apeteceu partilha-lo contigo. Porque ainda estou na dúvida se eras efectivamente tu que estavas hoje na rua. Pena que eu tenha vindo a descer e tu estivesses do outro lado. O meu coração diz-me que sim que eras tu, mas o coração já me diz tantas coisas estranhas, sente coisas estranhas, está estranho. Vou estar atento agora e subir a rua do lado onde estavas, quem sabe o destino não me prega uma partida e tu estás lá de novo. Agora vou estar preparado, eu acho.

Mas verdadeiramente não sei se eras tu...

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