Um pretexto para te escrever...



Perguntas porque deixei de te escrever... não sei! Hoje acordei com uma vontade enorme de falar, sabes... o tempo começa a passar por mim sem que eu me aperceba que passa veloz, numa reflexão a que a minha consciência obriga, visiono tantas mensagens, tantas dúvidas, tanto medo...

Do silêncio à angústia, falo dentro de mim para comigo, perguntando se não será um privilégio poder expressar o que me vai na alma? Sabes, se tivesse um único pensamento seria fácil dissecá-lo, mas são tantos... Sabes... gosto de saborear cada palavra tua devagarinho para lhe sentir o sentido, a profundidade da tua fala. Em cada frase fecho os meus olhos a imaginar-te, tentam-te sentir, tentam escutar o som da tua voz, o brilho dos teus olhos. Perdoa-me... Já não sou capaz, não consigo desenhar-te de memória...
 
Corri oceanos e não sou de lugar nenhum, atravessei continentes, pisei terras distantes, conheci cidades imponentes. Não pertenço a lugar nenhum, não tenho amigos, não tenho raízes. Amava os barcos, foram os meus amores de toda a minha vida, um amor inútil, sofrido, cheio de vazios e de trabalheiras.
 
Amei-te sempre toda a vida é isso e sou um velho louco e tolo em estar a escrever-te isto aqui. Nunca vais ler esta carta. Escrevi-te algumas, que nunca te enviei, não sabia para onde. Escrevia-te enquanto atravessava os oceanos, em dias que a lua espelhava na água profunda, em dias de tempestade. Todos os dias eram um pretexto para te escrever. Quase sempre arrancava a folha do caderno e a lançava-a ao mar.
 
Do lado direito do peito tenho o mar, no lado esquerdo estás tu...

As mãos estão paradas ao longo do corpo, vazias. O ruído de fundo que se ouve vem da praia, vem das rochas, a água salgada a bater e ser espuma que se desfaz em mil bolas minúsculas. A espuma é branca da cor do amor, como se o amor tivesse cor. Não tem. dói, o amor dói, arde na pele da mesma forma que o sol em brasa a queimar a pele quando durmo na praia, é uma febre vermelha.
 
Há dias andava na praia como ando sempre a olhar o mar com olhos de não ver. Posso andar na praia assim de olhos fechados que sei onde está o mar. Contigo é diferente, arregalo os olhos até doerem, luto com o sono, o peso das pálpebras como persianas velhas a caírem, venço e fico de olhos demasiado abertos. Só tu não estás. Por mais esforço que faça. Não te vejo. Não te sinto, nem na mão esquerda nem na mão direita, atrás ou á frente de mim. Às vezes dormes ao meu lado, mas acho que fazes de propósito, só pode. É quando vencido fecho os olhos e adormeço na praia até acordar assustado com o mar a lamber-me os pés com uma língua fria, húmida, a inundar-me num estado liquido, diria pastoso de areia fina e água salgada, às vezes também chegam farrapos de sargaços vencidos pelo mar de fundo vigoroso.

Gostava que me dissesses como é o coração. Podes dizer-me mesmo ao ouvido, murmurar-me, sussurrar-me, soprar-me ao ouvido mentalmente como é o coração.

Fazes isso? Fico à espera.

1 comentário:

Anónimo disse...

O coração tem a forma e a dimensão que cada um de nós quiser... Imagino-o como se fosse uma caixinha, onde vamos colocando cada tesouro que vamos encontrando: O amor, a amizade, a cumplicidade, o humor.... tantas coisas que podemos lá guardar... E tu, no meu, terás sempre um lugar especial.