Chove...



Hoje chove...
Sinto a chuva
a cair lentamente.
Pequeninas gotas.
Uma chuva suave.
O dia hoje está cinzento.
Chove...
As gotas batem nos vidros
e eu estou do lado de dentro,
contemplando o mar.
É um dia bom para ler um livro,
aqui no no "cabo do mundo".
A minha praia de memórias.
Estou só na companhia de um livro,
a chuva, e um dia cinza.
Às vezes passam as gaivotas rumo a norte,
mas não me ligam.
Os seus pensamentos são outros.
Estou só... e o tempo arrefece.
Sinto o frio a subir em mim pelos pés.
Espécie de torpor,
de hipotermia suave.
Chove lá fora,
no chão espécies de charcos, lagos doces,
onde os pardalitos se banham em breves esvoaçar de asas.
Perco-me da leitura que me trouxe até aqui.
Queria estar recolhido longe do mundo,
só...
Aqui neste sitio mágico.
Recordo esse dia, estava sol,
um sol por bonito.
E o mar calmo com um vento calmo...
Mas hoje chove...
E a chuva escorre no vidro
como as lágrimas que sinto por dentro.
Tu não sabes, mas venho aqui muitas vezes ao longo do ano.
Aqui fico, como hoje tentando ler um livro.
As folhas ficam paradas, sem virar de página.
E tu também não sabes...
Oiço algumas músicas,
enquanto tento ler o livro que não consigo.
Porque afinal...
Hoje chove,
e o livro é só o pretexto para aqui vir de novo.
Neste sítio deserto.
No "cabo do mundo"
para esperar por ti.
Tenho-te no pensamento...
No cimo da pedra em contra-luz,
o sol a pôr-se nas tuas costas,
e eu, meio tonto,
a estender-te as mãos e tu a sorrires...
E o teu cabelo a ondular ao vento suave,
e eu feliz por te amar.
O livro é só o pretexto.
A chuva as lágrimas que sinto por dentro.
Um vazio do teu perfume.
Os meus pensamentos são outros…
Encosto a face ao vidro e está gélido...
Bailam em mim as palavras…
Chove...
E esta chuva calma é uma espécie de fronteira.
Não te toco, não te sinto,
não te beijo ou te abraço.
Esta chuva é uma espécie de fronteira.
Uma espécie de mar profundo
onde me afogo pela tua falta.
A distância que nos separa, o Atlântico...
Hoje chove...
Eu venho mais uma vez,
tentar encontrar-me contigo
num equilíbrio precário desta tua ausência.
Porque, meu amor, dói-me a tua falta.
Doi-me este amor que guardo em cada respiração
Sinto-me só,
sabes... tu fazes-me falta!
Venho aqui sempre, quando a tua falta aperta e me sufoca.
E eu aqui só, deixo que o soluço rompa de dentro.
Ou as minhas lágrimas se confundam com a chuva.
E eu descanse, repouse o pensamento,
por todos estes momentos em que sonho contigo.
Então viro a página do livro que trouxe para ler
e que era só pretexto para te ter.
E continuo a olhar o mar e a chuva a cair lá fora.
O dia já escureceu,
agora negro, um cinzento negro.
Finalmente ganho a coragem de partir.
Despeço-me de ti fechando o livro,
desligando a música,
limpando a chuva no vidro.
A vontade é outra.
O teu abraço que me faz falta…
Tu não sabes...
Mas virei ainda aqui mais vezes.
Nos dias de chuva, ler o livro.

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