Morto cobrido de amor...



Pensava que uma das poucas qualidades que tinha era a ausência de inveja. Não é verdade, invejo os poetas. O que eu queria mesmo, o que mais queria neste mundo, o que mais desejava mas não tenho talento, era ser poeta. Descobri que os que escrevi são maus… não sou capaz, falta-me o dom. Foi um achado tremendo para mim, a certeza que a minha vida perdera o sentido. E então, aflito, desesperado, comecei a tentar outra coisa, Escrevi diários, pequenas notas e algumas crónicas mas este tipo de lérias não me entusiasmava. O que me interessava era transferir o mundo inteiro para o interior da minha escrita. Cheio de hesitações, recuos, influências, tinha a certeza que não era isto que eu queria, dei início a este fadário resignado com a minha ausência de talento para me exprimir em verso. Nos primeiros tempos ainda experimentei, ocasionalmente, redigi uns poemas: eram horríveis. Então conformei-me. O projecto de mudar o mundo através da minha escrita ajudava-me, romper com os cânones, a tradição, o passado, dizer o que nunca havia sido dito. A este sonho amparou-me e com este sonho continuo. No entanto a secreta inveja dos poetas permanece. Tento contorná-la ao exigir de mim o impossível: a quadratura do círculo das emoções. Conseguir um texto que contenha tudo dentro. Tudo dentro. E assim ando aqui amarrado em busca do infinito, palavra a palavra, lento como um boi, a emendar, a voltar ao princípio, a emendar de novo, a voltar ao princípio de novo, a conseguir uma linha, duas linhas, uma página por fim. Trabalho de oficina, excepto em momentos privilegiados em que a mão anda por si, e o texto encontra, como por milagre, o seu caminho. No resto do tempo sinto-me como um velho nas escadas, conquistando duramente cada degrau. Não me estou a queixar: tenho o que escolhi, faço o que quero, não trocava a minha vida por nada deste mundo. No ano passado achei-me de repente diante da minha finitude, num imenso assombro. Considerava-me imortal; soube, com horrível violência, que o não era. Ter passado o que passei alterou-me por completo a existência e suponho que modificou também a minha escrita sob a forma de um infinito futuro, isto é uma porção limitada de dias que apesar de tudo acreditamos, contra a evidência, não terminar nunca. Agora tenho essa eternidade. Por quanto tempo não sei; o silêncio rodeia por toda a parte, quer dizer, a ameaça dele. Não podemos deixar que ele nos assuste. Gastei muito tempo a encostar o ouvido à terra do meu corpo, tenso, à espera. Agora não, fico de pé na minha teimosa precariedade. Uma viagem ao médico e a confirmação através de exames que o meu corpo está bom… há alturas em que me apetece despi-lo, correr sem ele, à deriva no meu lago de emoções, esperanças, desânimo ocasional, amor. Sou muito mais capaz de amar agora… Não. Sou finalmente capaz de amar agora. Não me sinto apenas feito para escrever como um danado, sinto-me feito para amar como um danado, numa doce ferocidade. De engolir o universo. Acabarei de escrever um texto e talvez escreverei mais alguns até me tornar, não sei quando, um morto coberto de amor, recordo-me de ti…
Regresso aos meus textos que estão ali á minha espera, fazendo-me negaças. Não tem sorte nenhuma: vou ganhar. Nem que a pele fique pelo caminho vou ganhar. Mudá-lo-ei dúzias de vezes mas ganho. Só há saída pelo fundo e eu encontro-a. De onde me virá esta teimosia, esta firmeza? Não sei, julgo que sempre fui assim desde o início. As partes gelatinosas que tive vão tornando-se em pedra, cheio de ferro por dentro acabo de comer a torrada e beber o último golo de um belo chá preto, e volto á escrita. Porque não volto atrás e vejo o que deixei escrito? Retratos, sentimentos, apenas papéis…

Sem comentários: