Para lá deste olhar...

 
Para lá deste meu olhar profundo, há outro espaço, outro mundo, que não sei explicar. Um lugar onde os pardais soltos voam sobre mim e espalham liberdade á minha volta, num chilrear constante e harmonioso que transforma os meus pensamentos em palavras e enche páginas brancas do meu Eu. Mas muito mais que as palavras, paira no ar o silêncio de horas gastas, que adiam respostas, porque perguntas não há que resistam ao fugitivo sempre em viagem de sonhos.

Não necessito sequer de tentar compreender a distância que separa a Vida da Morte. O tempo não é o que escolhi, mas sim o espaço onde mora o meu corpo, rodeado de outros corpos inquietos, indecisos e desesperados, á procura de coisas exteriores que não alimentam o sentido da vida. E tantas vezes obrigado a não ser livre no mundo dos outros, escolho a solidão num canto do jardim, onde fecho a porta à hipocrisia e ao egoísmo, em defesa do castelo que construí. Lá dentro, sim, tenho tudo o que enche a alma de ar puro e fresco, porque num espaço sem gente, a força da razão e do amor suplanta a nostalgia de estar só.

Neste lado de cá, encontro-me mais dificilmente e cada vez mais raramente, porque o vazio inunda a alma das gentes, tão perdidas num labirinto de materialismo e malabarismo. Nesta sociedade que brilha simplesmente à custa do sol, predomina a pequenez do Ser, mirrado de inveja, vaidade e cobardia.

Consumindo e consumido, o Homem transborda de agressividade, denunciando-se a si próprio. Espectador das muralhas do meu castelo, vejo as dores das crianças, esses olhos inocentes e profundamente tristes, que nada entendem da maldade do ser humano. Muitas lágrimas, que então ensopam o rosto do meu Eu, descem à terra seca para que as tuas flores voltem a nascer.

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