Apaga-se o tempo...



Percorro as ruas desfolhadas da minha vida e, sem querer magoar o Outono, os pés enrolam-se nas folhas coloridas de castanhos e amarelos. O ruído nasce debaixo dos pés e absorvendo-me os pensamentos. Tocado pela tranquilidade desta manhã azul, mas tão agreste em mim, sou sacudido pela força desta época tão pobre de verde, mas ricamente delineada e pintada de formas e cheiros característicos do ano. O cair de cada folha marca um segundo de passagem no tempo. Bem no alto, as últimas folhas parecem frutos maduros, prestes a descer dos troncos húmidos. Formas matizadas bordam as ruas como esculturas perdidas, num enorme tapete macio. Entre milhares de folhas, procuro a mais bela, caída há pouco de um plátano mais velho do que eu. Ainda quente da sua morte, toco-lhe levemente para não magoar as veias da sua alma. Caule entre os dedos, ergo-a ao sol num gesto de agradecimento. Deliciado com a elegância da sua veste, coloco-a cuidadosamente entre as páginas do meu livro. Passeamos juntos, sem horas nem ninguém. Nas mãos, sinto o toque da natureza como uma dádiva caída do céu, despertando em mim o sentido da caminhada, enquanto a força do Outono aquece os meus dedos; respiro livremente e deixo a solidão e a nostalgia abraçadas aos troncos nus. Muitos Outonos ainda hão-de vir e amarelecer nos corredores da vida! Apaga-se o tempo, envelhece a memória, mas o ciclo repetir-se-á enquanto houver árvores e Primaveras. Então, tudo renascerá nas folhas verdes de esperança!

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