Retrato...


Olho-me ao espelho e as vezes não me vejo... Os meus olhos às vezes parecem ter perdido os teus. O meu cabelo que antes era farto agora é escasso e o que ficou começa a ficar branco com a neve dos anos. As minhas mãos que antes receavam largar a areia do tempo e que se apertavam no vazio, hoje já se conformaram com o facto de estarem sempre a perder, sempre a ver partir e eu já quase me entretenho com o passar da vida, com esse dedilhar do pó por entre os dedos.

Hoje olho aquilo que escrevi, pedaços do que fui, do que me dei, do que senti, restos das vezes em que amei e não disse, mais do que a angústia de não o ter dito e que sentia… já não tenho a certeza se conseguirei escrever da mesma forma pura como escrevia outrora.

Hoje habituei-me a estar aqui e não estar aqui ao mesmo tempo, habituei-me a este olhar distante, perdido, habituei-me a não sentir, a não gritar, a não chorar a não sofrer, não porque não sofra, mas porque os anos me dão uma anestesia especial, quase viril.

Hoje olho as pessoas, o filho que se criou e já não consigo sentir que o perdi, mas apenas que a paternidade, o amor e quem sabe o sonho são projectos talvez para um amanhã que pode não acontecer. Nesta batalha incerta que é a vida, pergunto-me qual a minha definição do conceito do próprio sentimento?

Hoje gostava de ser um bebé, uma criança para estar delirante com os brinquedos, os legos, os lápis-de-cor, os puzzles… mas coloco de lado o sonho e somente sinto este cansaço, aquele cansaço que está entranhado em mim e que se prolonga além das férias, além dos fins-de-semana, como se o coração apertasse.

Hoje sei que perdi a forma de dizer, muitas palavras que deixei de saber exprimir, sonhos, que deixei de sentir lutas que deixei de querer travar.

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